Quem é mais inteligente, o homem ou a mulher?

Há dois dias, assisti a uma reportagem do Jornal Hoje da Rede Globo sobre uma pesquisa, conduzida pelo Professor José Abrantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com alunos do Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam) — link para o vídeo da reportagem —. A pesquisa buscava identificar de qual dos sexos eram as pessoas mais inteligentes; identificando, assim, entre homens e mulheres, qual grupo possui o maior nível de inteligência relativo ao outro. O marco teórico utilizado foi o da Teoria das Inteligências Múltiplas; inicialmente proposto por Howard Gardner, segundo a qual a inteligência humana por ser 'quebrada' em diferentes áreas de competência, sendo elas: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal e intrapessoal — contudo, parece, Abrantes utilizou uma versão modificada desta proposta, já que considerou 12 'inteligências', e não 7, como na proposta original de Gardner. A metodologia utilizada seguiu a identificação de cada inteligência analisada com disciplinas cursadas pelos alunos da (Unisuam), e o nível de inteligência dos dois grupos foi medido com base nas notas recebidas nessas disciplinas.

Explicada a questão, aqui vão os problemas que eu encontrei nessa pesquisa (e que podem ser generalizados para outras pesquisas desse tipo).


i. O problema sempre presente da escolha teórica — a pesquisa (pelo menos no que foi reportado sobre ela) não traz nenhuma perspectiva meta ou multi-teórica (nem multi-disciplinar); o autor não compara, por exemplo, o desempenho dos alunos em nota (dado utilizado) com o desempenho que teriam em um experimento controlado que também medisse as 12 inteligências, ou com os resultados que encontraria se um outro método de medição fosse utilizado (como o teste de QI, que continua sendo o método de avaliação de níveis de inteligência mais utilizado nos dias de hoje). O resultado encontrado pelo pesquisador pareceria mais 'convincente' se também fosse o obtido com diferentes métodos e diferentes perspectivas teóricas.

ii. O problema da inferência — inferir o nível de inteligência de cada aluno (em cada uma das 12 competências identificadas por Arantes) com base em suas notas de faculdade não é pouco problemático. Em primeiro lugar, há o problema claro de se identificar uma disciplina com uma ou mais áreas de competência; e.g., uma prova de Português que envolva interpretação de textos requer competências bem diferentes daquela que avalie a memorização de regras gramaticais, contudo, é bem provável que notas de Português tenham sido relacionadas à competência linguística somente (obs.: eu penso que interpretação de textos envolva, também, uma boa medida de inteligência interpessoal e que a gramática envolva uma medida de inteligência naturalista). Em segundo lugar, esse tipo de inferência não considerou variáveis intervenientes no desempenho em notas dos alunos; i.e., há questões pessoais que determinam notas escolares que têm pouquíssimo ou nada a ver com a inteligência de cada um. Por exemplo, um aluno pode cursar a faculdade visando ao recebimento de um diploma que lhe garantirá um valor adicional no seu salário, enquanto um outro cursa as mesmas disciplinas com vistas a seguir carreira na academia — é bem provável que as notas do primeiro sejam menores que a do segundo, mas o determinante dessa diferença é a dedicação aos estudos, e não a inteligência de cada um deles. Em outro caso, um aluno pode cursar o turno noturno de um curso porque possui um emprego em tempo integral e é chefe de família, enquanto um outro cursa o mesmo curso no turno vespertino (e não trabalha nem é responsável por outras pessoas em sua família) — parece claro que o segundo terá mais chances de tirar notas maiores que o primeiro, mas a questão aqui não é inteligência, e sim, entre muitas, tempo para estudo. Enfim, notas não parecem ser um bom indicador de inteligência.

iii. O problema de junta — há uma diferença clara no que diz respeito ao desempenho de uma pessoa na academia e aquele que ela vai realizar no 'mundo real'. As escolhas metodológicas do estudo culminaram em uma desconsideração total das diferenças entre o desempenho teórico e prático dos alunos; i.e., parece-me que há um distância grande entre o resultado que os alunos podem adquirir em uma avaliação teórica e aqueles que eles vão conseguir quando puserem esses conhecimentos em prática. Na minha experiência pessoal, consegui conciliar notas muito altas em disciplinas de simulação de negociações com uma total incapacidade de resolver qualquer conflito que tenha surgido com outra pessoa no meu dia-a-dia; mas veja, segundo os critérios dessa pesquisa, eu sou um gênio da inteligência interpessoal.

Bem, acho que é isso. Comentem!

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